A queda projetada para a economia brasileira em 2020







Moradores da favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro, esperam doações de ONGs. Há uma família de pé: uma mãe, quatro filhos e a avó. Eles estão em frente a duas casas simples de tijolos e cimento, com sandálias e roupas simples. A avó usa uma máscara.
 
“O crescimento em 2020 será o dobro deste ano [2019]. Se em 2019 for 1,2%, então [será] 2,4% [em 2020]”. Essa era a expectativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, em dezembro de 2019.

O PIB (Produto Interno Bruto) de 2019 já ficou abaixo dos 1,2% esperados pelo ministro. Foi de 1,1% – uma diferença pequena, mas que contribuiu para a sensação de decepção com a economia no ano de estreia do presidente Jair Bolsonaro.

Com a reviravolta da pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março de 2020 pela OMS (Organização Mundial da Saúde), a previsão de Guedes para 2020 acabou implodida.

As projeções já refletem as expectativas de uma retração da economia brasileira na comparação com o ano anterior – podendo até chegar a ser o pior desempenho anual da história da economia brasileira.

OS DEZ PIORES
Os dez piores anos do PIB brasileiro de 1901 até 2019.  Queda de 4,35% em 1990 foi a pior até o momento.
As projeções para o PIB brasileiro em 2020
De 1901 até 2019, nenhuma vez a atividade econômica brasileira, medida pelo PIB, caiu mais que 5% em um ano. Já houve momentos críticos ligados a crises de todos os tipos: guerras, Grande Depressão, hiperinflação e crises financeiras. Mas as projeções que surgem para 2020 mostram que 2020 pode ser o ano em que a barreira da queda dos 5% seja quebrada.

No domingo (12), o Banco Mundial lançou um estudo em que projeta uma queda de 5% para o PIB brasileiro em 2020. Segundo o órgão, há três principais fatores que irão puxar a economia brasileira para baixo.

O primeiro é a queda na demanda externa, que irá impactar o setor exportador. O segundo é a forte redução nos preços internacionais do petróleo, que irá afetar a exportação do produto pelo Brasil. E o terceiro, e mais óbvio, são as medidas tomadas para conter a disseminação do novo coronavírus, que irão reduzir drasticamente a circulação de pessoas e esfriar consideravelmente a economia do país.

Da mesma forma, o FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou na terça (14) sua previsão de que a economia brasileira deve encolher 5,3% em 2020 em relação ao ano anterior. Se as previsões dos órgãos internacionais se concretizarem, o ano de 2020 irá se tornar o pior ano para a economia brasileira desde o início do século 20, a partir de quando há dados disponíveis.

O relatório Focus
A cada semana, o Banco Central divulga o relatório Focus, que compila as projeções de economistas de bancos, corretoras, agências de câmbio e de outros participantes do mercado financeiro e do setor empresarial. São mais de 100 opiniões coletadas semanalmente por meio de uma pesquisa feita por um sistema online.

O Focus traz as expectativas do mercado de como o PIB, a inflação, o câmbio, a taxa de juros e outros importantes indicadores econômicos terão evoluído até o final do ano. As perspectivas dos agentes são compiladas também para os três anos seguintes.

EXPECTATIVA EM QUEDA
Projeção do relatório Focus para o PIB em 2020. Expectativa em queda desde meados de março
No início de abril, o Focus mostra como as expectativas do mercado são de queda do PIB brasileiro em 2020. O valor registrado em 9 de abril foi de retração de 1,96% – queda consideravelmente menor que a prevista pelo Banco Mundial e pelo FMI.

O que diz o governo brasileiro
O governo brasileiro demorou a admitir que haveria queda na atividade econômica em 2020 em comparação a 2019. Em 12 de março, já com a pandemia decretada pela OMS, Guedes disse que no pior cenário considerando o vírus a economia brasileira cresceria 1%.

Oito dias depois, a equipe econômica do governo baixou a previsão de crescimento da economia para 0,02% em 2020 – o seja, praticamente nula. Naquele momento, o governo reconheceu também que havia um risco de recessão decorrente da pandemia.

Em 10 de abril, já com medidas de isolamento social sendo tomadas em diversos estados e o número de infectados já na casa dos milhares, Guedes falou em queda de 4% do PIB em 2020, em videoconferência com senadores. Foi a primeira vez que o ministro ou qualquer outra pessoa da equipe econômica admitiu e falou em um número para a queda do PIB no ano.

As expectativas antes da pandemia
Antes da pandemia, as expectativas eram de uma melhora da economia em relação a 2019. O próprio relatório Focus mostrava que até o início de março o mercado esperava um crescimento de pouco mais que 2% em 2020.

Mas, em março, o quadro mudou. Após 11 de março, quando a OMS reconheceu o estado de pandemia e medidas de isolamento social começaram a ser tomadas em diversos países, incluindo vários estados do Brasil, o Focus diminuiu suas expectativas.

Na mesma linha do relatório Focus, um documento publicado no dia 20 de dezembro de 2019 pelo Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) previa alta de 2,2% para a economia brasileira em 2020.

A expectativa do instituto era de que o desempenho da atividade econômica dobrasse, com uma aceleração considerável que ajudaria a superar o momento de lentidão na retomada econômica após a recessão que durou de 2014 a 2016.

Quando o documento foi publicado, o novo coronavírus ainda era um fenômeno novo, recém descoberto na China. Ainda não se sabia qual seria a dimensão do impacto trazido pela doença.

Duas análises sobre o tamanho da queda
O Nexo conversou com economistas para entender o tamanho da crise e como ela deve se traduzir para a população brasileira.

Emerson Marçal, coordenador do Centro de Estudos em Macroeconomia Aplicada da FGV-SP
Esther Dweck, professora de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
A pandemia deve afetar negativamente as economias por todo o globo. Mas o que esse tombo significa especificamente para o Brasil, considerando o momento econômico do país?
EMERSON MARÇAL A gente vinha em uma recuperação. O que vai acontecer é que vamos ter uma recessão muito forte este ano [2020]. O tamanho da recessão ainda ninguém sabe.

O fato é que vamos ter uma recessão muito forte que vai deixar sequelas, mesmo quando as coisas começarem a voltar ao normal. E vamos ter uma recuperação provavelmente lenta depois que as coisas acalmarem. E aquela situação econômica que tínhamos antes – que era uma situação difícil e que estava sendo administrada principalmente na parte fiscal – vai se deteriorar ainda mais. Ou seja, as coisas vão ser mais difíceis de serem administradas depois que a emergência médica acabar.

Temos que tentar retomar aquela trajetória de recuperação, mas ainda vai demorar um pouco mais. A gente vai ficar mais uns dois anos tentando administrar o rescaldo da crise.

ESTHER DWECK Primeiro, temos que pensar na situação em que estávamos antes da pandemia. Tivemos duas quedas muito fortes consecutivas [do PIB] em 2015 e 2016, o que é uma coisa muito rara. E depois a gente vinha crescendo muito pouco – perto de 1%.

Tivemos um aumento da desigualdade no Brasil nesse período (desde a crise de 2015). Tínhamos, consequentemente, um aumento da concentração de renda. Também tínhamos uma geração de emprego basicamente de emprego informal – pouquíssima geração de emprego formal, até porque o crescimento era muito pífio e muito baixo para uma mudança relevante de decisão das empresas de contratação.

E no início deste ano [2020], infelizmente, mesmo antes da pandemia, as expectativas que se tinha de 2% já pareciam um pouco otimistas, na minha opinião. Porque não se via nenhuma política efetiva para recuperar a economia. Em parte, esse crescimento baixo vinha de uma decisão de política econômica de retirar o governo [da economia]. O Banco Central mantinha uma taxa de juros relativamente baixa, mas isso não era suficiente para recuperar a economia na velocidade necessária para voltarmos a ter um crescimento que reduzisse desemprego e gerasse emprego formal.

Esse era o contexto pré-pandemia. Com a pandemia, a situação obviamente se agravou muito. Nesse contexto onde você já tinha aumento da desigualdade, uma geração de emprego informal e uma série de outras questões, essa situação é muito agravada [com a pandemia].

Quais são os principais fatores que vão influenciar o tamanho da queda do PIB brasileiro em 2020?
EMERSON MARÇAL Vai depender, basicamente, de como as coisas estão evoluindo lá fora, onde a pandemia começou. Estamos observando o que está acontecendo nos EUA, na Europa. Vimos que a coisa fugiu de controle nos EUA, porque os americanos demoraram para encarar seriamente o problemas; fugiu também do controle em alguns países da Europa. Mas agora parece que as medidas de isolamento para controlar a emergência médica começam a surtir alguns efeitos. Aí vai começar também o rescaldo lá fora. Aqui no Brasil, estamos no meio da emergência médica, então não sabemos qual vai ser o pico. A gente fez um isolamento parcial, que teve mais adesão no começo de março e perdeu força.

A crise doméstica vai depender de quanto tempo vai durar a emergência médica. Se a gente perder total controle da pandemia e se aproximar da situação de Nova York, Itália ou Espanha, aí o efeito sobre a crise no Brasil será bem severo. Aí temo que muitas das estimativas que estão sendo feitas nesse cenário sejam até otimistas, apesar de duras.

Uma epidemia é assim: a partir de um certo momento, não tem o que você faça para contê-la, a explosão é inevitável. A questão é quão grande vai ser essa explosão. Quanto mais pessoas forem infectadas ao mesmo tempo, sem capacidade de atendimento, maiores serão as mortes. E isso vai deprimir a atividade econômica.

A atividade econômica vai ser um espelho da curva da epidemia no Brasil. Quanto mais alta a epidemia for e mais ela durar, maiores serão os danos econômicos. Quanto mais dura for a crise mundial, mais vamos sofrer. E quanto mais demorarmos para conter a emergência médica no Brasil, mais vamos sofrer.

ESTHER DWECK As consequências vão depender muito da forma como o governo vai atuar nessa crise. O cenário de queda de 5% já pressupõe alguma medida do governo. Porém, as medidas que vimos até agora são medidas muito insuficientes para evitar uma queda maior. E isso supondo que as medidas vão ter um efeito para conter o aumento do desemprego. Só que isso não está acontecendo. O que estamos vendo é que, como as medidas estão demorando muito a serem tomadas – o crédito para as empresas para que se mantenham está demorando para sair, e mesmo assim quando aparece ainda é com custo muito alto – está havendo demissão. Então há uma parte da população que está sendo demitida.

O cenário de uma queda de PIB pode ser muito mitigada se você tem políticas que compensam. A queda da produção vai acontecer. Isso é um fato – o isolamento social impõe uma queda da produção. Porém, ela poderia ser muito mais mitigada para a população se você tivesse as políticas compensatórias no sentido de garantia de renda e para evitar desemprego. No geral, vai depender muito de como o governo vai compensar a queda da produção, que é inevitável. Se ele compensar garantindo a renda das famílias, isso é muito menos problemático para a população. Se ele não garantir, é mais grave.

O governo tem que atuar em três frentes. As medidas do governo precisam garantir: que haja um nível de renda (mais alto do que está sendo feito); que as empresas não quebrem, para que a recuperação seja rápida; que as pessoas fiquem em casa. Ficar em casa agora e ter uma pandemia com menos efeitos para o sistema de saúde é muito melhor para uma recuperação econômica. Se você resolver liberar tudo para evitar uma queda no curtíssimo prazo, na verdade a queda de longo prazo tende a ser muito maior.

Como a retração do PIB deve chegar na população? Que efeitos serão mais sentidos?
EMERSON MARÇAL Já está chegando. Vai aumentar o desemprego, vai haver redução do salário. Estamos em uma situação em que pelo menos o Brasil não está fazendo o trampolim inflacionário. A autoridade monetária está fazendo um bom trabalho, então esse canal de inflação não vai vir.

O que vai vir é o canal da atividade. Basicamente: desemprego, redução de salários, redução de atividade, menores vendas etc. Esse canal de atividade vai ser o principal que as pessoas vão sentir. O número ainda não foi divulgado, mas já houve um aumento do desemprego e uma queda da renda.

ESTHER DWECK Não garantindo renda, deixando as empresas quebrar e deixando haver demissão, a retomada é muito mais lenta posteriormente. As pessoas acham que você pode desligar a economia e religar; não é verdade. Se a economia for desligada de forma não organizada, e muitas empresas forem quebrando, fechando ou demitindo, você demora a recontratar, a reabrir as empresas. É muito mais lenta a recuperação, o que faz com que a queda da economia seja muito mais forte, porque você não tem só a queda naquele período em que você está paralisando a produção; você vai ter uma queda posterior mesmo quando a economia voltar e forem retiradas as medidas de isolamento social. As pessoas vão estar com menos renda, menos demanda, e menos empresas vão estar abertas; isso tudo se espalha por um período maior.

Além disso, essa crise tem um caráter mais grave para o fato de afetar principalmente setores de serviço. Porque o setor de serviços no Brasil tem uma participação de emprego superior a dos demais. A indústria extrativa, por exemplo, vai sofrer também; porém, é uma indústria que emprega pouca gente no Brasil, enquanto serviços é onde está boa parte da população empregada. E é o setor que vai ser mais afetado pela crise. Nesse sentido, ela é uma crise que tende a gerar um desemprego muito grande se não for feito nada para contrabalançar.


Reprodução: Nexo

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